A culpa também é nossa

11 March 2008 5 Comentários

Por Gui Pignata

Não há maneira melhor de inaugurar essa minha participação no Estagiaridade, que tem a pretensão de ser semanal, senão agradecendo o convite feito pelo Rafa.

Devo avisar também aos meus possíveis leitores que fui convidado mais pela boa impressão que minha escrita causou do que pelos meus conhecimentos e minha vivência em publicidade. É provável que eu freqüentemente apele para assuntos mais musicais…

O que eu certamente vou fazer vai ser estabelecer links entre cultura, arte, mídia, filosofia e publicidade.

Não sou nenhum expert nisso. Aliás, aqueles que, depois de lerem minha coluna, me acusarem de não saber nada disso, provavelmente têm razão. Mas foi essa possibilidade, de interdisciplinaridade, que me incentivou a estudar trabalhar com publicidade e vou fazer deste espaço, desta oportunidade, uma espécie de laboratório, aberto a palpites, críticas e opiniões sem censura e sem preconceitos.

Depois de um ano e alguma coisinha convivendo com profissionais e futuros profissionais da publicidade, ficou notório e alarmante pra mim o déficit cultural e educacional das pessoas do meio. Erros de redação e ortografia primários, completa alienação política, desconhecimento de dados e fatos históricos e sócio-culturais, às vezes até da própria cidade em que vivem… Isso pra citar apenas alguns dos problemas. Não creio ser necessária uma argumentação muito concisa pra mostrar o tamanho do absurdo que é isso quando falamos de comunicadores sociais…

São o equivalente ao analfabeto político de Brecht. Estufam o peito e dizem “Não gosto de política. Não gosto de teatro. Só leio o caderno de esportes!” e mal sabem, ou fingem não saber, a importância que essas “coisinhas” tem na própria vida, pessoal e profissional, e nas vidas com as quais acabam por brincar enquanto trabalham.

Impossível não estabelecer uma relação entre essa constatação e a realidade opaca da publicidade no Brasil. Estaria o marasmo publicitário nacional associado a esses pormenores (ou seriam ‘pormaiores’) da vida do profissional?

Ok, ok… Existe uma realidade assustadoramente cruel no Brasil no que diz respeito aos índices educacionais, culturais e outros “ais”, que muitas vezes não nos permitem executar trabalhos mais rebuscados, eu mesmo já falei disso aqui. Mas isso não me parece desculpa! Não é nada que criatividade, ousadia e jogo de cintura não possam resolver!

Alguém poderia por a culpa na correria do dia-a-dia, na falta de tempo… Conversa! O que seria de um diretor de multinacional, até as tampas de compromissos e responsabilidades, se alegasse não ter tempo pra verificar e avaliar índices econômicos na velocidade do mercado financeiro ou coisa que o valha?

De alguma maneira temos que reabastecer (em alguns casos apenas abastecer) nosso repertório de conhecimentos gerais, de atualidades e até de banalidades! É daí que vem a criatividade. Informação (de todo tipo) e cultura são matérias-primas da nossa profissão. Um profissional vazio, carente destes princípios, não inova, não ousa, não evolui e conseqüentemente seu cenário de atuação também não.

Não pense que aquele estagiário não está babando pra pegar seu lugar.guilherme.jpg

Gui Pignata é músico, bacharel em Música Popular pela Unicamp, estudante de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas e designer gráfico da ONG Teatro de Tábuas.

Contato: guipignata@gmail.com

Posts relacionados

5 Comentários »

  • Rafael Amaral disse:

    Parabéns pela estréia, Gui!

    O blog está totalmente aberto a opiniões e os links que você pretende trazer, entre cultura, arte, mídia, filosofia e publicidade são de grande importância.

    Concordo com você quando diz que falta ao profissional essa consciência (ou seria motivação?) de que toda informação e cultura absorvida reflete na qualidade do trabalho. Mas acho importante ressaltar que tão importante quanto ao menos ter uma noção de Foucault, Platão e Sócrates, é observar como anda o BBB8, a escola de samba e a novela das 20h.

    Se não houver esse equilíbrio, corre-se o risco de se criar apenas soluções que agradam o público A e outros publicitários.

  • Maria Angelica Mazzoni disse:

    Parabéns pelo texto. Até me fez manifestar minha opinião! haha
    Agora falando sério, o seu texto resume tudo aquilo que penso e isso eu vejo já na universidade, mesmo antes do mercado de trabalho.
    Mas concordo também com o Rafael Amaral, pq uma coisa que acho triste é uma alienação ao que está sendo produzido no próprio país.

    Ah! E não dá pra se iludir, estou mesmo babando por uma vaga ;)
    Maria Angelica Mazzoni’s last blog post..No meio

  • Gui Pignata disse:

    Está coberto de razão, Rafa!
    E foi exatamente isso que eu quis dizer quando mencionei a relevância do repertório de atualidades e banalidades. A bandeira que defendo há muito tempo na música e agora na publicidade, e que certamente se aplica a muitas outras áreas, é que a banalidade deve ser usada como recurso, não pela falta de recurso!
    Temos alguns deveres a serem cumpridos enquanto profissionais da comunicação que estão além das versões finais de nossos jobs!
    Valeu!!!

  • Rodrigo Alexandre Coelho disse:

    Realmente a situação de nossa publicidade e de nossos publicitários não é das melhores quando falamos em repertório e formação cultural.
    Este problema, no entanto, não é exclusividade da classe, é um problema de larga escala em nosso país, mas também, é evidente que, em se tratando de comunicadores sociais a situação chama muito a atenção.
    Gostaria de destacar também que acredito que este vazio cultural da área é também resultado de estratégias alienantes e propositadamente imbecis de algumas agência. Neste sentido gostaria de recomendar o seguinte post: http://novamidia-novomarketing.blogspot.com/2008/03/um-comercial-burro-por-favor-o-ponto-de.html , no qual discuto um pouco a visão de dois importantes nomes no mercado publicitário nacional, Nizan e Justus.

    Rodrigo Alexandre Coelho’s last blog post..Um comercial burro, por favor – o ponto de Nizan Guanaes

  • Juliana Sampaio disse:

    Nossa. Lavou minha alma. O mercado precisa muito, e urgentemente, de seguir esse conselho. Eu até concordo o Rafael, saber o que acontece no BBB e na novela também é importante. Mas, sejamos sinceros: os profissionais com quem vocês convivem gastam mais tempo debatendo sobre a novela ou sobre Foucault?

    Juliana Sampaio’s last blog post..Qual o seu tipo?

Deixe seu comentário!

*
To prove you're a person (not a spam script), type the security word shown in the picture. Click on the picture to hear an audio file of the word.
Click to hear an audio file of the anti-spam word