A remuneração. De novo

23 July 2008 7 Comentários

Há muito tempo venho resmungando da questão da remuneração.

Tenho um certo medo de parecer mercenário, mas não é o caso! Falo de remuneração justa, compatível, no mínimo, com os frutos que ajudamos a colher e com nossa qualificação.

Já não é a primeira vez que comparo ao meio musical e não vai ser a última, então vamos lá.

Nos bares com música ao vivo, por exemplo, é muito comum o músico ganhar o mesmo que um segurança.

Para ser um segurança de bar ou de balada não me parece ser necessário mais que um pouco mais de 1,80m - exatamente o meu caso - (embora eu já tenha visto muitos seguranças menores que eu), pouco amor à vida, um terno preto e cara de mau, mesmo que fingida. Agora, põe uma guitarra na mão de um desses broncos que costumam exercer o cargo!

Mais que isso: alguém vai a um determinado bar ou casa noturna com música ao vivo porque o segurança é mais “segurança” ou porque tem “tamanho, terno preto e cara de mau” melhores que os de outros bares?

Dias atrás, Sergio Faria escreveu para o Blue Bus: “se há crise na propaganda, é de identidade, baixos salários e remuneração de agências de forma ilegal/antiética”.

Foi o que me motivou a escrever este artigo.

O que vejo por aí é algo parecido com uma história que carrego, junto com algumas mágoas, em meu currículo.

Com o estigma de “estagiário de criação”, fiquei jogado em uma sala apertada, sem janelas e com um ar condicionado que não dava conta, tentando fazer o CS2 rodar em um Pentium II com 256Mb de RAM, pra diagramar (veja bem: “diagramar” e não “criar”) anúncios para a maior conta da agência. Aguardava uma oportunidade, mesmo que pequena de efetivamente estagiar em criação, mas os termos de aprendizado que por definição fazem parte de um estágio eram relegados a mim mesmo em outras esferas. Nessas condições únicas oferecidas pela empresa, ouvia a diretoria ponderar sobre a troca de seus automóveis por modelos que chegam a custar 100 mil reais e aguardava minha significativa bolsa de 500 reais.

Já contei essa história aqui?

Bom. Não enjôo dela mesmo! Vai servir sempre pra mim como uma demonstração de que o mercado pode ser muito injusto e antiético no que diz respeito às condições de trabalho e principalmente à remuneração.

De alguma maneira esse quadro deve começar a mudar.

Se as empresas não se tocam, a gente que se rebele!

A gente precisa dos estágios e dos empregos, mas as empresas também precisam de mão de obra qualificada e isso não é tão fácil de achar quanto parece.

Depois de Bacharel, simplesmente não aceito mais cachês que me façam me arrepender de não ter optado por ir ao cinema com minha namorada. Foi duro passar um tempo com a consequente diminuição drástica na renda, mas agora to curtindo o que espero não ser um mero momento de valorização e satisfação profissional, recebendo razoavelmente bem pra isso.

Vou tentar me lembrar de escrever no próximo post sobre um grande exemplo histórico de como isso funcionou, mais uma vez no meio musical, durante o pós guerras, nos Estados Unidos.

Até lá!

estigma es.tig.ma
sm (lat stígma) 1 Marca indelével. 2 Cada uma das marcas das cinco chagas de Cristo, que alguns santos traziam no corpo. 3 Marca produzida por ferrete, com que antigamente se marcavam escravos, criminosos etc.

guilherme.jpgGui Pignata é músico, bacharel em Música Popular pela Unicamp, estudante de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas e coordenador de comunicação da ONG Teatro de Tábuas. Contato: guipignata@gmail.com

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7 Comentários »

  • Elaine Cipriano disse:

    Ah, talvez seja porque é a primeira vez que eu venho aqui e não conheço tudo o que você já disse sobre remuneração: eu não discordo da conclusão, só do exemplo de raciocínio (atenção: a partir de agora eu corro o risco de estar me desviando do assunto). Achei a comparação do músico com o segurança meio infeliz, porque ok, o músico se acaba pra fazer o trabalho dele direito - haja dedicação - sem nem a certeza de que vai receber alguma coisa no fim do mês, mas enfim: o segurança tá lá muito antes do músico chegar, ou então sai bem depois, e, surgindo uma confusão cabeluda, é ele quem segura as pontas enquanto todo mundo sai correndo pra salvar a própria cara. Inclusive o músico. Se não dá certo entregar a guitarra pro segurança, também não daria muito certo entregar a segurança para o músico. Outra coisa: ninguém vai em lugar nenhum porque o segurança é mais bombado, mas se a segurança não funciona, ninguém vai, também. Vai dizer que você encara numa boa frequentar um lugar famoso pelas porradas e tiros que comem soltos?
    O que eu quero dizer é que nem precisa existir comparação: músico recebe mal pacas, segurança se arrisca pra receber pouco. Os dois deviam ganhar mais, em vez de ver o dinheiro todo virar Rolex e Hilux pro patrão.

  • Felipe disse:

    Incrível mesmo como há remuneração de maneira antiética.
    Aqui onde trabalho chegou até a justiça do trabalho e quase deu merda pra todo mundo!
    Além de pagarem mal, não há contrato nem carteira assinada!
    incrível!

    Mas só pra constar(desculpe o merchan)vou criar um blog em conjunto com um camarada meu essa semana ainda (se tudo der certo) e isso vai sero tema de um os primeiros artigos (já havia pensado nisso, só faltava alguém que me deixasse ainda mais indignado)

    Abrasss

  • Rafael Amaral disse:

    Olá Elaine e Felipe! Obrigado pela visita.

    Elaine, o teu ponto é correto. Qualquer comparação é relativa. Acredito que o que o Gui quis fazer foi um paralelo isolado para ilustrar a desvalorização do profissional.

    Felipe, que bom que serviu de inspiração. Volte depois para mostrar o post ou mande um trackback.

    Abraços!

  • Gui Pignata disse:

    Bom, Elaine…
    Ha um pecado mortal em ler meus posts (ou, acredito, qualquer outro aqui) sem considerar a inevitavel superficialidade, ja que tratam-se, nao raro, de assuntos que precisariam de livros ou congressos para serem discutidos em sua totalidade.
    Vc provavelmente nao leu as outras coisas que escrevi a respeito de remuneracao e me parece tambem nao ter a menor nocao de como as coisas funcionam na noite (e ai eu falo com infintamente mais gabarito do que como publicitario, desviando sim do assunto).
    Pontualmente, e tentando seguir a ordem de suas colocacoes, ja que me tocam direta e intimamente, me cabe dizer::
    O seguranca NUNCA esta la antes de o musico chegar (salvo excessoes em casas que abrem muito cedo). Ha uma serie de procedimentos complexos e demorados, dos quais os leigos raramente tem conhecimento, necessarios para que corra tudo bem numa apresentacao. O que é visto pelo publico é um pentelhésimo do esforço, do trabalho e da dedicação. Por isso chegamos MUITO cedo ao local!
    Normalmente temos que esperar o fechamento do caixa pra recebermos (quando recebemos) o que nos faz ir embora junto com os segurancas.
    Quando sai uma encrenca cabeluda, o musico nao deixa pra tras seu investimento de milhares de reais em equipamentos e instrumentos pra livrar a propria cara e é muito comum casos em que o musico tem que ajudar a intervir.
    Salvo os lugares de nivel bem baixo mesmo, que sustentam deliberadamente as confusoes, lugares em que a seguranca nao funciona nao se mantem abertos, ao passo que o musico ruim é que nao dura na casa boa.
    Ja conheci muitos caras que, precisando de emprego, meteram um terno e fecharam a cara pra fazer uma grana. Se essa fosse minha unica opcao de me sustentar, com meus 1,84, acho que toparia. Mas nao conheco nenhum musico (bom e consciente) que tenha conseguido sequer subir em um palquinho de boteco com menos de 3 anos de estudo, praticando em media 4 horas por dia.
    E assim chegamos ao ponto principal do meu artigo: especializacao!
    É como o Rafa disse, um paralelo isolado. Aposto que depois de 4 anos de faculdade e fazendo planejamento pra uma agencia séria e competente, vc nao toparia correr atras de um caminhao recolhendo sacos de lixo, nem tampouco toparia ganhar o mesmo que um lixeiro. Por mais essencial que seja (e é) essa profissão e por mais que passe mais tempo na rua que vc na agencia, o cara so precisa de preparo fisico e estar disposto a enfrentar tudo isso pra seu proprio sustento.

    E Felipe… O pior de tudo é que normalmente nao da em nada… Estamos acostumados com isso e precisamos desacostumar!

    Obrigado aos dois pela “audiencia” e pelos comentarios!

  • Iasnara disse:

    É incrível como o drama se repete em cada canto do país (e/ou do mundo).
    Sem bancar vítima, mas, há empresas que, seja tu estagiário, seja efetivado,o olhar do empregador é sempre o mesmo: o teu trabalho é um processo mecânico e teu salário uma despesa.

    Nos resta meter a cara e ficar sempre de olho noutras oportunidades.

  • Elaine Cipriano disse:

    Pois é, por isso é que eu disse que não discordava do sentido, só do exemplo.
    Não precisa existir comparação. Independente da minha ignorância em relação à carreira de músico. Quando você diz que para ser, sei lá, pedreir, segurança, ou outra coisa basta ser fisicamete apto e ter disposição para se sujeitar a isso, o que pesa é justamente essa “disposição”. Porque tá, o estagiário recebe mal pra caramba, mas nas agências que acham que o estagiário tá lá pra aprender, depois de 2 anos o cara está ganhando, no mínimo o dobro. Dá pra dizer o mesmo: você só chega a um salário razoável se tiver a tal da disposição para se sujeitar a essas condições.
    Ambos ganham mal, mas a possibilidade de continuar se especializando e fazer trabalhos que ajudam a conquistam mais espaço pesam a favor da gente.
    Quand escolhi ser publicitária, eu assumi o risco de não ter carteira fichada, emprego certo pra toda vida. Não aceitaria correr atrás do caminhão, mas mais pelo medo de ficar estacionada no mesmo lugar, cm a carreira (que carreira?) amarrada do que pelo salário ruim que ia receber pra sempre.
    De qualquer forma, acabei fugindo mesmo do assunto (mas avisei. rs!).

  • Tiago jaime machado disse:

    momento Bob Garfield do dia…

    “Blood on the streets!”

    É uma revolução, de fato.

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