De Cannes a Miami (Store)
Por Gui Pignata
Dizem que certa vez Einstein foi a uma festa e, como não conhecia ninguém, foi logo tentando se misturar aos convidados. Chegou em um e disse:
- Oi! Qual o seu Q.I.?
- 180.
Conversou então sobre física quântica, teoria da relatividade, buracos negros…
Chegou em outro:
- Oi! Qual o seu Q.I.?
- 110.
Conversou sobre política, desigualdade social, reforma agrária, etc.
Outro convidado:
- Oi! Qual o seu Q.I.?
-80.
Então começou a conversar sobre desemprego, Mercosul, aumento dos combustíveis, Bin Laden, etc.
Mais um:
- Oi! Qual o seu Q.I.?
- 40.
Aí a conversa foi sobre Big Brother, Adriane Galisteu, Luciana Gimenez, ACM, Marta Suplicy, Garotinho, novela das oito, etc.
Chegou em um outro convidado e disse:
- Oi! Qual o seu Q.I.?
- 10.
- Faaaaala, companheiro! E o Coringão?!
Brincadeirinhas futebolísticas à parte, essa piadinha infame é excelente pra ilustrar minha tese: Um sapato bem grande entra em qualquer pé, um sapato pequenininho só entra em pés pequenininhos.
Tom Jobim, grandioso e genial maestro, aluno preferido do maestro e arranjador da orquestra da Rádio Nacional, Radamés Gnatalli, reinventou a sonoridade da música brasileira e revolucionou sua estrutura com suas inversões de acordes e harmonias quartais…
…e escreveu um samba com uma nota só! (Tá bom… Outras notas entraram, mas a base é uma só!)
Maurice Ravel, um dos maiores compositores do século XX, escreveu o Bolero, sua principal obra, com 14 minutos e 10 segundos de repetições e variações de uma única frase melódico-rítmica.
Washington Olivetto criou em 1978 a campanha da Bombril que consta do Guinness como a série publicitária mais duradoura do mundo.
Qualquer um entenderia se resumíssemos superficialmente o formato dessa série como “um cara atrás do balcão apresentando produtos”. Sendo assim, qual a substancial diferença entre a campanha com Carlos Moreno e aqueles merchans insuportáveis de programas como os da Sonia Abrão e da Márcia Goldsmith? Seriam as “harmonias quartais” de Olivetto, talvez?!
O Rafa mandou muito bem no artigo Inteligente propaganda burra e vou utilizá-lo pra alinhavar (ou emaranhar) ainda mais nossa discussão (é verdade que diante da minha imaturidade articulista fiquei com um pouco de medo de ter sido mal interpretado na minha primeira coluna, mas vambora).
Nizan não é nada burro! A África definitivamente não é o que é hoje por um mero golpe de sorte! É certo que Nizan conhece muito bem as realidades do Brasil (sim, plural… Porque elas são inúmeras e faz-se publicidade pra todas elas).
Em tempo:
- 8%, OITO POR CENTO dos municípios brasileiros, ou seja, 444 de 5560 possuem sala de teatro. (Ouvi isso do Jorge Braz, diretor do Teatro de Tábuas).
- A ilha de Manhattan (só a ilha, sem contar toda parte continental de NY) tem mais salas de cinema do que o Brasil inteiro. (José Wilker no programa “Gabi Entrevista”)
- Há mais livrarias em Buenos Aires, capital da Argentina (atenção: não estou falando de Paris ou de Helsinque) do que em todo o Brasil (Gilberto Dimenstein no “Capital Humano”– CBN)
- Tem também uma estimativa que diz que no estado de São Paulo cerca de 80% das pessoas NUNCA foram ao teatro!
Não dá para a comunicação ser inteligente, elaborada, sofisticada, criativa o tempo todo!
Uma linguagem à lá Godard, Orson Welles ou Quentin Tarantino não atingiria nem 10% da população brasileira.
A propaganda tem que cumprir seu papel e muitas vezes tem que ser dito “Isso aqui custa tanto” e pronto!
O que penso é que é uma vergonha um profissional da comunicação não ser capaz sequer de encontrar uma referência bibliográfica da área em uma base de dados digital da universidade (acreditem, eu já presenciei isso)!
Também sou convicto de que mesmo um outdoor da Miami Store (pra quem não conhece Campinas/SP, os outdoors da Miami são sempre algo tipo o título “Sony é na Miami”, uma foto da Bravia, às vezes em perspectiva, e o preço) fica muito mais interessante se for utilizado um pouquinho de Gestalt.
Mesmo a burrice a que se refere Nizan deve ter critério. Deve ter onde, quando, como e por que. Deve ser pensada e cuidadosa!
Já que nos propusemos a fazer uma faculdade, investir (às vezes gastar) tempo e dinheiro, pra podermos dizer que somos publicitários, alguma coisa tem que nos diferenciar daquele atendente de gráfica expressa que faz “A SUA LOGO” por “30 conto”. O cara coloca o nome da empresa em Times New Roman bold e ilustra com um clipart do word…
É por isso que fico muito feliz de ver e acompanhar iniciativas como a deste blog e de tantos outros, assim como fico honrado de participar do Estagiaridade. Nós temos sim que discutir, palpitar, brigar, trocar idéias exaustivamente. Só acrescenta.

Gui Pignata é músico, bacharel em Música Popular pela Unicamp, estudante de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas e designer gráfico da ONG Teatro de Tábuas.
Contato: guipignata@gmail.com










Descobri o Estagiaridade hoje e tive a sorte de encontrar seu texto logo de cara. Brilhante. Parabéns!
Obrigado pela visita, Isaac!
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