Mesma tecla

1 April 2008 2 Comentários

Por Gui Pignata

Tenho insistido na questão do conhecimento.

Não fiquei surpreso quando uma amiga revelou que não fazia idéia do que era a Lei Rouanet.

Uma lei relativamente nova de incentivo à cultura que reduz o trâmite e a burocracia no repasse de verbas à projetos que estimulem a produção cultural e que levem cultura à população. O processo é relativamente simples: tanto pessoas jurídicas como físicas podem dar destino direto a o que devem de Imposto de Renda.

Na minha traumática e desprezível, porém construtiva experiência como designer em uma empresa de eventos em São Paulo, vi os gananciosos (atento à diferença entre gananciosos e ambiciosos) e incompetentes gerentes e diretores se utilizarem de brechas na lei (que me parecem propositais) para financiar eventos nitidamente comerciais com atrações criadas pela industria cultural (Theodor Adorno sabia o que dizia) e ganharem muito, mas muito dinheiro com isso.

Antiético, na minha opinião. Mas minha opinião é baseada em ideologias e não é disso que o mercado é feito.

Por que diabos pode ser interessante saber sobre a Lei Rouanet?

Tem muito campo pra trabalho. O Marketing Cultural acontece em todos os cantos, com as mais variadas receitas, pra todos os públicos.

A cota máster de patrocínio do último projeto do qual participei em São Paulo era de R$ 1.500.000,00. E esse dinheiro vem mesmo! Pela lei Rouanet ou não, grandes empresas vão patrocinar grandes eventos, seja pra incentivar a cultura e o entretenimento, e assim fazer uma media com o público, seja pra simplesmente mostrarem sua marca, o que, por fim, é sempre a intenção (sabemos que ninguém é bonzinho, ainda mais nessa área).

Acho mesmo imoral usar a lei nesse caso, mas tá longe de ser ilegal. Como disse, são brechas na lei, não afrontas à ela.

Mesmo nos casos em que considero honrado, há muito o que se fazer (profissionalmente mesmo, ganhando bem pra isso) pela popularização da cultura e arte lançando mão das eis de incentivo à cultura.

O caso aqui do Teatro de Tabuas é bom pra ilustrar isso. Não é o único, nem o maior, nem o melhor projeto e ainda assim entra pro caixa, de empresas como Voith, Grupo Votorantim e Visanet, quantias que tem entre 5 e 6 zeros, via Lei Rouanet.

Pressiono a mesma tecla e insisto no conhecimento. Conhecimento do mundo que nos rodeia. É nele e em suas conseqüências que se insere o mercado publicitário. A gente pode optar por fazer encartes de Supermercado pro resto da vida.

“A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão e arte.”

(Comida - Titãs)

guilherme.jpgGui Pignata é músico, bacharel em Música Popular pela Unicamp, estudante de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas e designer gráfico da ONG Teatro de Tábuas.
Contato: guipignata@gmail.com

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2 Comentários »

  • Gutos disse:

    Muitas empresas agem de acordo com as brechas da lei, assim como muitos mafiosos. Outro dia vi no jornal a noticia de uma amante que planejou matar ‘uma primeira primeira dama’ ai… Ela planejou tudo com o matador, foi gravada por telefone, houve a queixa, mas ela não vai ser presa pois não existe lei que prenda quem planeja assasinatos, e não chega a executar ou permitir a execução do plano.

    Eu sabia e não sabia o que é Lei Rouanet.

    Se alguém me perguntasse sobre esta lei, eu lembraria do nome, mas não explicaria. Se me perguntasse sobre alguma lei envolvendo cultura (ou impostos), eu explicaria a Lei Rouanet, mesmo sem saber seu nome.
    Agora já sei.

    Abraços

    Gutos’s last blog post..Hitler, O Líder que Não Escondeu

  • Gui Pignata disse:

    É, Guto…
    É uma prática comum usar das brechas… Quer mais do que os próprios advogados fazem?
    Eu fico em conflito, sempre! Não tem muito como fugir disso e a gente tem que trampar, right?

    O que eu mais gostei de começar a ler e escrever nos blogs da área e, por conta disso, ter contato com profissionais de todo canto, é a quantidade de informações que a gente adquiri sobre coisas das quais nem nos daríamos conta!
    O lance é aproveitar!

    Abraço e obrigado!

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