Mídia e eleições
Começou a campanha eleitoral 2008.
As eleições, já há um ou dois pleitos, não têm o mesmo gosto para publicitários e marketeiros. Nem mesmo as gráficas têm ganho tanto com isso.
Depois de sérias restrições impostas aos candidatos pelo TSE, os períodos eleitorais tem sido um marasmo, no que se refere à propaganda, se comparados a o que eram uma ou duas décadas atrás.
Eu não pretendia mesmo lucrar com política por questões pessoais, éticas e de princípios, embora não saiba, no meu caso particular, se essas questões têm um preço. Nunca me ofereceram nada.
Quero abordar outro aspecto da campanha.
Em meio ao muito pouco interessante e nada importante que se noticia sobre as eleições que estão por vir, dados irrelevantes como qual cidade tem o menor colégio eleitoral recebem um destaque monstro.
Borá, no interior de São Paulo, entre Marília e Presidente Prudente, superou (se é que nesse caso pode-se dizer ‘superou’) a cidade goiana de Anhangüera no quesito ‘menor número de eleitores’. E isso rendeu destaque na primeira página na sessão eleições 2008 de um dos maiores portais de notícias brasileiros, o G1.
Como disse, pode até ser interessante, mas irrelevante. Pode até ter algum impacto político, mas talvez isso se restrinja aos Borenses (é assim que se chama quem mora em Borá?), afinal as eleições são municipais e a menos que algo muito extraordinário me aconteça, eu não tenho a menor intenção de ir morar numa cidade que tem pouco mais de 900 eleitores.
O dado fica ainda menos relevante diante do que vi ontem à noite, 15 de julho de 2008. Durante o programa Entrevista Record, da Record News, enquanto Paulo Henrique Amorim entrevistava o secretário de ensino à distância do Ministério da Educação sobre o programa nacional de inclusão digital de professores e alunos, passou naquela legenda na parte inferior da tela que dão pequenos drops de notícias o seguinte dado: “Mais da metade dos eleitores não tem o ensino fundamental.”
O curioso é que não encontrei nem menção a esse dado, de relevância óbvia e declarada, em nenhum dos veículos que consulto com freqüência: Correio Popular, de Campinas (e, assim, provavelmente também não está em nenhum veículo da Rede Anhangüera de Comunicação), O Estado de São Paulo, G1, UOL, Cosmo Online. (ainda vou dar uma olhadinha na Folha, mas duvido).
Mais uma demonstração do quanto é importante que profissionais da comunicação discutam comunicação.
O que é notícia, o que interessa, a quem interessa, quando interessa, se interessa mesmo.
Desde que o finado ACM (guardarei pra mim minhas opiniões sobre sua morte) saiu do escândalo do painel direto para a presidência da Comissão de Ética do Senado, não acredito mais que essas discussões possam surtir algum efeito prático em menos de, sei lá, algumas décadas. Mas temos que manter a consciência e a essência. Ainda mais como profissionais da comunicação, como não canso de dizer.
Me lembrei de uma de minhas bandas preferidas, Os Paralamas do Sucesso, e de um dos meus compositores preferidos, Herbert Vianna:
“Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar
Por qualquer trocado
Por um par de sapatos
Por um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados”
Gui Pignata é músico, bacharel em Música Popular pela Unicamp, estudante de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas e designer gráfico da ONG Teatro de Tábuas.
Contato: guipignata@gmail.com







Deixe seu comentário!